Joaquim Rita no Mundial

Sábado, Julho 08, 2006

Confronto Ronaldo-Podolski

Não é fácil inventar suportes anímicos que sirvam de pilares a uma construção em mau estado de conservação…motivacional.
O jogo do 3º e 4º lugares está historicamente condenado a ser um confronto de menor expressão, marcado muito mais pelo desencanto de quem falhou o objectivo maior, do que pela consolação de uma posição apenas honrosa.
O trajecto das equipas como que se torna irrelevante, ainda que o acesso ao pódio não deixe de ser um prémio – mas sempre um prémio pequeno e triste para quem sonhara mais alto. Não há consolação que contemple a frustração de não poder discutir o título, de se ter afogado à beira da praia encantada.
Esse sentimento de ausência gera um natural esvaziamento de alento, uma espécie de ritual de luto pela «morte» do sonho mais lindo alguma vez sonhado. E não são apenas os jogadores a experimentar esta amálgama de desconforto e desilusão, também os treinadores a têm de suportar, embora estes com a obrigação de superarem as suas próprias fragilidades emocionais, guardadas para momentos de solidão que, se calhar, os fazem sofrer desumanamente. Os treinadores, antes de exercerem o seu ofício técnico, têm se ser actores, representando um papel superior que os leve a esquecer o passado mais recente, levando os jogadores a encararem o (novo) jogo como se fosse o mais importante. No fundo, sentem a obrigação de impor aos jogadores a alegria que os leve a disfarçar o «jogo dos tristes».
Há muito que se discute a utilidade deste jogo, para lá do que verte do alinhamento dos lugares cimeiros. O objectivo prioritário é apenas o de engordar os já anafados cofres da FIFA, ainda que, por arrastamento, também o «bolo» que se atribui às diferentes selecções aumente, embora as equipas que discutem o 3º e 4º lugares recebam exactamente a mesma saborosa fatia de 13,6 milhões de euros.
Por «artes e ofícios», a FIFA – terá sido por acidente?... - acabou por arquitectar um suplemento de expectativa e interesse em redor do jogo de hoje – o frente-a-frente entre Ronaldo e Podolski, os homens que discutiram o prémio do «melhor jogador jovem» do Mundial e que, como se sabe, com total ausência de pudor, foi desviado do alcance do português. Tratou-se daquilo a que na gíria se chama de uma «falta grosseira» com a assinatura de quem manda no futebol.
Fazer do «jogo dos tristes» mais um motivo de alegria para os portugueses é o que se pede à nossa selecção. Em Estugarda está enfeitado um novo altar para a nossa crença.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Parabéns ao Derrotado

Só os ingénuos – para não lhes chamar pacóvios… - terão estranhado a «derrota» de Cristiano Ronaldo na atribuição do prémio Jovem Jogador do Mundial. Já na nossa anterior crónica deixávamos a interrogação se, no «seu» Mundial, a Alemanha não iria ganhar nada? Podia lá ser…
Antes de qualquer surpresa que possa surgir no confronto para os 3º e 4º lugares, atempada, prudente e… despudoradamente a FIFA soube encontrar mecanismos que afastassem Ronaldo do triunfo. Insisto que a «derrota» de Ronaldo se insere numa lógica de procedimentos que não espanta minimamente quem, desde há largos anos, se habituou a conhecer «de ginjeira» as manigâncias em que chafurdam dos donos do futebol mundial e europeu.
Ronaldo estava SEMPRE condenado a perder em favor de um alemão. Politicamente era uma derrota tão óbvia quanto anunciada; tão natural como miserável. Mas tinha de ser assim.
Amontoam-se as razões que teriam de conduzir à «condenação» do português em mais uma exuberante demonstração do desrespeito com que a FIFA nos trata e que, de algum modo, também ajuda a explicar como o árbitro e seus assistentes «não viram» o penalty (empurrão) cometido sobre o mesmíssimo jogador que estava a discutir o prémio Jovem Jogador deste Mundial. Apenas coincidências…
A subtileza das engrenagens só ilude os menos identificados com o «SISTEMA», os que acreditam que, no futebol, tudo está dependente do que transpira da competência, talento e inspiração dos jogadores em cada noventa minutos e que nada nem ninguém dispõe ou utiliza outras «ferramentas» que levem à construção de resultados.
Para nós, o jogo com a França já projectava de forma cristalina esta derrota de Ronaldo, da qual saiu vitorioso o alemão Podolski, cujas qualidades só por um qualquer desvario mental podem ser postas em causa.
Para um espectador atento e emocionalmente distanciado, a soberba exibição de Ronaldo contra a França estava amplamente condenada à distinção – pela FIFA!!! – do «homem do jogo», o que não sucedeu, surgindo Thuram como premiado. Estrategicamente, negaram a Ronaldo essa atribuição para que o «portuguesito» se mantivesse envolto numa certa penumbra, para que não se tornasse individualmente notado, quando estava a discutir outra corrida bem mais importante, sob o «sagrado» patrocínio da imaculada FIFA.
Como em todas as actividades, também no futebol há fronteiras para a seriedade e para a indecência, embora alguns as procurem confundir, serpenteando, entre umas e outras, com a maior tranquilidade e hipocrisia que se possa imaginar. Nada de surpreendente. Dito de outra forma: há limites para as coisas serem levadas a sério e Ronaldo não perdeu – derrotaram-no. Talvez sorrindo, com a arte de quem tem o Mundo a seus pés e nunca hesita em espezinhar os mais humildes, obrigando-os a viver permanentemente de cócaras, a FIFA cumpriu uma vez mais o seu papel. Parabéns ao… derrotado.


PS: Ver filme de Ronaldo a propósito desta derrota, no BLOG ALEMANHA EM DIRECTO

Esta Dor Que Nos Consome

O futebol está a ensinar ao povo português que orgulho e desencanto são conciliáveis, podem misturar-se em doses ajustadas. Afinal, trata-se de «parentes» desoladoramente próximos, descobertos num anoitecer sombrio deste Verão de sonhos traídos.
As horas que se seguiram ao afastamento de Portugal da final do Campeonato do Mundo deixaram-nos de mãos quase vazias, como se tudo o que ficou para trás – e foi TANTO!... -, não valesse de nada. Temos registada uma patente «made in Portugal» de viver as paixões de uma forma desmedida, cega, brutal, quando Deus quer, até inconsciente. Não temos contemplações na entrega; não oferecemos concessões no sofrimento. Somos irreversivelmente assim: galopamos os sonhos com tanta intensidade que os projectamos como certezas, sem nos prepararmos para qualquer tropelia de um destino sempre à espreita para nos «rasteirar» ao virar da esquina.
Foi isso. O destino trocou-nos as voltas em Munique e tudo se desmoronou, deixando-nos neste jeito… desajeitado. Este vendaval de desalento que nos consome até às entranhas e vai demorar a aplacar, não deve, no entanto, turvar-nos a lucidez, ao ponto de não reconhecermos o seguinte:
- fomos mais além do que, provavelmente, pensámos;
- nunca na história do futebol português estivemos tão perto de chegar tão longe;
- sem ter deslumbrado, com o evoluir da competição, Portugal construiu «pedaços» de futebol de apreciável qualidade;
- fomos empurrados para trás por um deslize grosseiro da arbitragem («penalty» sobre Ronaldo), mas também nos faltou «qualquer coisa» para transformar em golo, situações de finalização relativamente fácil;
- independentemente do que ocorra no «jogo dos tristes» de sábado, com a anfitriã Alemanha – eles não hão-de ganhar nada? …irão passar pelo «seu» Mundial como «cão por vinha vindimada»?... -, ficaremos posicionados alguns lugares acima do VALOR REAL da nossa selecção;
- não podemos fazer desta mistura de orgulho e desencanto uma espécie de tapete vermelho para passearmos uma qualquer vaidade estúpida que nos faça regressar ao tempo das vitórias morais.
Malsinadamente, cumpriu-se uma vez mais o «ritual» francês das meias-finais. E vão três perdidas. É inevitável que o comportamento da selecção ao longo deste «Mundial» vai suscitar, a partir de agora, análises multifacetadas – umas, empolando o que de bom aconteceu – e ACONTECEU!; outras dimensionando os erros em que incorremos – e INCORREMOS!; outros, ainda, situando-se numa «terra de ninguém», como se, inevitavelmente, deste «Mundial» não fosse forçoso retirar ensinamentos e «pistas» e tudo se resumisse ao foguetório popular dos momentos de euforia do «Portugal olé, Portugal olé».
Talvez as horas que se seguiram ao desaire com os «bleus» tenham sido mais sofridas porque aconteceram na digestão da imensa felicidade em que, durante semanas, o povo português deliciosamente mergulhou. A dor que nos consome é sempre maior na ressaca dos tempos felizes…

Terça-feira, Julho 04, 2006

Uma Dívida Por Pagar

É tempo de romper com a história, de amarrotar estatísticas, de enterrar tendências. É tempo de fazer um tempo novo, de escrever uma nova história, de encararmos a realidade e dela partir equipados de esperança para fazermos deste confronto com a França mais uma etapa dourada do futebol português.
Vinte e quatro anos depois, apenas equipas europeias reservaram lugar nas meias-finais e essa distância do Espanha-82 tem de nos encorajar perante o quinhoamento de favoritismo, um pouco do tipo «cada cor seu paladar», isto é, onde todos e cada um encontra argumentos tão auto-convincentes que os leve a sonhar com o título. Por que haveríamos de ser diferentes? Quem nos pode roubar a ambição? Por que castigo teríamos de ser apenas figurantes «de luxo» deixando para outros o protagonismo de um palco que apenas nós nunca pisámos.
Este é também um tempo de romper com o fatalismo das meias-finais luso-francesas. Em 1984 levámo-los até ao «inferno» - como soube reconhecer na altura o seleccionador francês Michel Hidalgo -, e só a ingenuidade nos atraiçoou quando a vitória parecia escrita. Em 2000 voltámos a tropeçar em deslizes escusados, embora, por amor à verdade, tenhamos de reconhecer que não estivemos tão perto de ser finalistas como no Euro-84.
Houve uma diferença substantiva entre os dois confrontos. No França-84 tivémos a vitória nas mãos e deixámo-la fugir; na edição de 2000 entregámos-lhes o triunfo numa mão amaldiçoada, num jogo feito de maiores incertezas.
Sei que no futebol não há espaço para vinganças, mas é inevitável este cansaço de nos perdermos à beira do sonho. Nesta altura em que, porventura por razões sentimentais – não sei se lhe chame gratidão ou saudade… - sinto muito mais próximo o jogo daquele sábado de Marselha, em 1984, onde, ao serviço de «A Bola» e integrando a mais competente equipa de trabalho de que fiz parte, tive como companheiros Vítor Santos, Carlos Pinhão e Nuno Ferrari - infelizmente todos eles já desaparecidos -, três expoentes do jornalismo (desportivo) português de sempre, três «monstros» de um saber sem tempo nem medida, três professores de uma arte jornalística que, se não este em vias de extinção – feita com a devoção, descomprometimento, competência e isenção com que eles, sacerdotalmente, a exerciam – foi trocada por uma irreverência bastas vezes irresponsável e destemperada, quando não mesmo presunçosamente inovadora e detentora de todas as verdades deste Mundo, mesmo as mais mesquinhas.
Eu sei que Vítor Santos, Carlos Pinhão e Nuno Ferrari vão «estar» comigo no jogo de Munique e tanto gostaria que Portugal vencesse os franceses para lhes dedicar a vitória que nos fugiu há vinte e dois anos. Tenho essa dívida para com eles, mas preciso da ajuda do Figo, do Ronaldo, do Ricardo, do Deco, do Ricardo Carvalho e de todos os outros, para a poder pagar. Ou será que as dívidas de gratidão alguma vez poderão saldar-se?...

Segunda-feira, Julho 03, 2006

Decepções, Ódios e Maldades

Há no futebol uma tendência quase irreprimível para acentuarmos as prestações individuais em prejuízo das avaliações colectivas. No fundo, instintiva, insensata e desajeitadamente, deixamo-nos seduzir e apaixonar com muito mais facilidade pelo que de bom faz este ou aquele jogador, do que pelo desempenho das equipas.

Com Portugal deliciosamente instalado entre os semi-finalistas, um coro de patéticas e desesperadas invenções, com proveniência inglesa pretendem, mais do que ACUSAR o não infractor, ABSOLVER quem prevaricou, deixando, assim, às claras o plano de quem tanto e de forma indisfarçadamente reles «manobrava» para ver a sua equipa seguir em frente. Alguns jornais ingleses reagiram com irracionalidade, com análises a destilarem ódio, sem um pingo de sensatez, equilibrio e isenção.

Deixemos os ingleses atolados na sua raiva. Todavia, esta reacção «very british» talvez nos ajude a compreender melhor alguns comportamentos de José Mourinho quando teve de se opor e reagir perante frequentes e não inocentes desvarios de uma certa «cambada» a que chamam de Imprensa. Fez bem José Mourinho em os enfrentar.

Com o «Mundial» a caminhar em passo acelerado para o final, tendo como certo que os semi-finalistas dificilmente nos oferecerão razões para expressivo desencanto, o afastamento do Brasil como que acelerou a inventariação das grandes decepções, embora razões diferentes suportem alguns dos inúmeros fracassos.
No entanto, se tivermos de escolher o mais rotundo falhanço, esse só pode ter um nome: Ronaldinho. Do «melhor do Mundo», nem uma exibição ajustada à sua dimensão, nem um lance com a marca da sua lavra. De quem mais se esperava, foi quem mais falhou. Mas a lista de fracassos é extensa e escolhendo apenas um jogador por selecção, os nomes de Raul (Espanha), Aimar (Argentina), Lampard (Inglaterra), Schevchenko (Ucrânia), Larsson (Suécia), Van Nistelrooy (Holanda), Kezman (Sérvia-Montenegro), Milan Baros (Republica Checa) ou Prso (Croácia) ajudam a construir a ideia da abstinência produtiva de algumas das principais figuras de cartaz do Alemanha-2006.

No plano colectivo o Brasil foi sempre uma equipa… adiada, pachorrenta, adinâmica, relaxada, bem à imagem do seu conformado treinador. Do Brasil esperava-se TUDO e o Brasil ofereceu-nos pouco mais do que NADA. A indignação dos brasileiros é compreensível porque os amantes do bom futebol também se sentiram defraudados. Alguém imaginaria as meias-finais sem Ronaldinho, Kaká, Ronaldo, Robinho ou Adriano? Que maldade nos fizeram…

«Firme! Sentido! Em Frente, Marche!»

As inundações de contentamento que estão a atingir Portugal, como consequência dos desempenhos da selecção, têm tanto de legítimo como de encorajante, até do ponto de vista social.
Explicado de outra forma: os portugueses precisavam «disto», quanto mais não seja para atenuarem sintomatologias deprimentes de quem, até por viciação hereditária, têm tendência para ver o futuro pintado de cores escuras, quando não mesmo tisnado de um negro de descrença que, a ritmo galopante, nos vai roubando o brilho do olhar, trocando-o pela bacieza de uma tristeza quantas vezes desesperante.
Nos relvados alemães a selecção escreve…PORTUGAL. E fá-lo com dignidade, com talento, com respeito, com sofrimento, como quem cumpre uma missão que ultrapassa – e ultrapassa em muito! – o plano desportivo.
O triunfo perante a Inglaterra, excessivamente demorado no tempo de concretização, excessivamente sofrido na sua consumação, excessivamente empolgante na sua construção, por maiores que tenham sido as provocações sofridas no passado recente com proveniência inglesa, nada nos pode suscitar um sentimento de vingança porque, quem se vinga depois de vencer – mesmo nas circunstâncias em que Portugal venceu –, é indigno da vitória.
O que interessa é…a «bola», as razões que nos levaram a um triunfo de «gestação» arrastada e complicada, mas nada que a «cesariana» a cargo de Ricardo não tenha resolvido.
Para trás ficou um jogo no qual Portugal foi descaradamente melhor, com diferentes méritos avulsos, quantificáveis em diferentes dosagens, mas susceptíveis de definição. Vejamos:
- LUCIDEZ na estruturação da equipa face às ausências de Deco e Costinha, chamando Tiago para equilibrar os movimentos de jogo.
- INTELIGÊNCIA do «líder espiritual» (Figo) na definição dos ritmos a que mais nos convinha jogar face a um adversário experiente, temível e muito apoiado.
- ACERTO nas acções preponderantes de marcação individual (Petit sobre Lampard e Maniche frente a Gerrard) que levou ao «corte de corrente» de alimentação do jogo atacante dos ingleses;
- COMPETÊNCIA de Scolari nas leituras que foi fazendo do jogo, sobretudo depois da expulsão de Rooney e que levou a que jogássemos a toda a largura dos 50 metros de ataque, mesmo improvisando Ronaldo como «ponta-de-lança», procurando, dessa forma, disfarçar a ausência de um cabeceador.
Desconheço os mecanismos de liderança que Scolari exerce. Todos sabemos que lhe chamam «sargentão», como sei que criou à sua volta um sentimento de cumplicidade, solidariedade e fraternidade simplesmente impenetrável a qualquer tipo de vírus. Esta selecção portuguesa assemelha-se a um pelotão de operações especiais, que responde com religiosa prontidão e encantadora eficácia à voz de comando. Scolari faz dos relvados o seu campo de batalha e, ao formar o pelotão às suas ordens, basta dizer-lhes: «Firme! Sentido! Em frente, marche!». E eles lá vão, em passo de corrida, em busca da vitória…

Sexta-feira, Junho 30, 2006

Há um Povo Ansioso

Enquanto alguma despudorada imprensa inglesa procura manter ateadas as labaredas de um mentiroso sensacionalismo noticioso, que deixa em fanicos quaisquer princípios ético-jornalísticos, com o miserável propósito de inventar polémica, da intimidade da selecção portuguesa transpira uma tranquilidade encorajadora, capaz de projectar alguma acalmia na euforia que varre Portugal de lés-a-lés.
A algumas horas do grande embate de Gelsenkirchen, é possível definir alguns aspectos que, de forma substantiva, estão a marcar o jogo:
- a imbecilidade de alguns jornalistas (?) ingleses, equipados de incendiários, fazendo da mentira a sua «verdade» noticiosa;
- a consciente decência dos jogadores e técnicos ingleses – de Eriksson não se poderia esperar outra coisa… - que, através de declarações serenas e avaliações sensatas, não regateiam elogios aos jogadores portugueses, numa espécie de desmentido público aos próprios jornalistas do seu país;
- uma quase incontrolável onda de optimismo entre os adeptos portugueses, esquecendo contrariedades pontuais para «surfarem» sobre uma onda de euforia descomplexada.
- a mensagem de serena esperança veículada por Scolari e pelos jogadores, fazendo-nos acreditar numa segunda versão – quem sabe se melhorada?... – do ocorrido no Euro-2004.
Não adianta, nesta altura, contabilizar os eventuais prejuízos resultantes das ausências de Deco e Costinha, das dúvidas que envolvem Ronaldo ou invocar a espantosa qualidade de algumas unidades alheias, muitas delas responsáveis por alguns dos mais saboroso pedaços de futebol com que nos fomos deliciando nos últimos meses através das transmissões televisivas.
Nada vale de nada quando tudo está dependente do talento e carácter dos nossos jogadores, da certeza de que o SUCESSO é sempre filho da AUDÁCIA e, também neste particular, já demos sobejas provas de sermos gigantes.
Há um povo sofregamente ansioso por um novo sopro de felicidade. Teremos que andar com uma candeia acesa para a podermos encontrar fora do futebol…

Quinta-feira, Junho 29, 2006

A Fatalidade de Ronaldo

Ronaldo cumpriu o destino (con)sagrando-se como melhor marcador das fases finais de Campeonatos do Mundo.
A ultrapassagem que fez ao mítico «bombardeiro» Gerd Muller que, apenas em duas edições (70 e 74), alcançara 14 golos, mais do que uma finalidade era uma fatalidade à qual o «fenómeno» só escaparia na Alemanha por quaisquer impedimentos de natureza física.
Não deixa de ser irónico que Ronaldo tenha dividido a alegria dessa sua «vitória» individual abraçado ao homem que no Mundial-94, nos EUA, quando o «fenómeno tinha apenas dezassete anos, lhe roubou o encanto de se estrear em fases finais – Carlos Alberto Parreira. Apesar dessa abstinência, Ronaldo sagrou-se campeão «à boleia» dos golos (5) de Romário e do superior desempenho de Dunga e Mauro Silva, pilares de uma estrutura à qual sobrava tanto de eficácia quanto lhe faltava de estética e fulgurância de jogo. Baresi, Massaro e Baggio, ao desperdiçarem pontapés de grande penalidade, fizeram o resto – Brasil campeão do Mundo.
Muito fustigado por lesões, Ronaldo tem sido um jogador intermitente, incapaz de suportar uma normal sequência de jogos, intervalando o seu insuperável instinto goleador com a frustração de prolongadas ausências. Os joelhos têm sido o seu tormento, ao ponto de, na época passada, não ter realizado mais de sete jogos consecutivos com a camisola do Real Madrid, o que não o impediu de se cotar como um dos melhores marcadores no exigente futebol espanhol.
O despertar para o «record» que já estabeleceu e que corre o risco de reforçar, ocorreu no França-98, onde marcou por quatro vezes (Marrocos, Chile(2) e Holanda), acrescentando a contabilidade no Coreia-Japão com mais 8 remates vitoriosos (Turquia (2), Chile, Costa Rica (2), Bélgica e Alemanha (2), até chegar aos três golos em relvados alemães (Japão (2) e Ghana).
Com algum espanto, mais do que os golos que vai marcando à cadência de uma aprimorada linha de montagem, no eixo da polémica em redor do goleador está o seu desproporcionado peso – mais de 90 quilos!... -, para um futebolista de altíssima competição, não faltando quem sustente – porventura com toda a legitimidade – que as frequentes lesões do «Gordo» têm muito (ou tudo?...) a ver com o peso excessivo que nada consegue disfarçar… a não ser com os golos que marca.
Sem pretendermos empobrecer o mérito que repousa sobre os ombros (largos…) de Ronaldo – como se isso fosse minimamente possível… – cremos que este seu «record» (passível de, até final, ser… «engordado») tem muito a ver com dois aspectos:
- com a qualidade das «assessorias» que tem tido – Rivaldo e Bebeto (98); Rivaldo, Ronaldinho e Juninho (2002); Kaká, Ronaldinho, Juninho e Robinho (2006);
- com o número (3) de competições em que participou e o levou a realizar um número de jogos muito superior ao do alemão Gerd Muller (70 e 74) ou de Just Fontaine (13 golos na edição de 58).
Capaz de manter em actividade a «linha de montagem» de golos na presente competição, é evidente que Ronaldo deixou de ter a preponderância que já reivindicou na construção de jogo atacante brasileiro. No entanto, mais ou menos anafado, com mais ou menos «pneu», continua fiel ao que sempre foi o seu ofício – a «insignificância» de marcar golos.
Na vida nada é eterno e os «records» também não…

Quarta-feira, Junho 28, 2006

Adeus África

É velha e nunca escondida a minha admiração pelos aromas e sabores do futebol africano, traduzidos numa intuição única, numa ginga sublime, numa técnica enfeitiçada, agora explosiva, logo estanque nos movimentos, como se, em cada instante, a bola fosse uma «ferramenta» de prazer e só depois o objecto do próprio jogo.
Nunca alimentei ilusões quanto ao destino do (mais) resistente Gana perante o gigante Brasil, depois de a Costa do Marfim ter traído as expectativas no acesso aos oitavos-final já que Drogba, Touré e Eboué me pareciam mais fortes do que Essien, Appiah e Amoah, todos eles a frequentarem as melhores escolas do futebol europeu. Sem falar em decepção, a Costa do Marfim sugeria uma maior robustez colectiva e, sobretudo, superior esperteza individual, já que falar em estruturada «cultura» de movimentação entre os sectores pode envolver algum excesso de valoração. …E excesso porque os africanos fazem do futebol um «enredo» de movimentos, nem sempre disciplinados, algumas vezes até com sintomas de um anarquismo… cativante, mais expressivo na matriz da África negra, afinal, o mais genuíno, capaz de tirar dele todo o gozo do Mundo, qualquer que seja a qualidade do futebol praticado.
Custou-me ver o Ghana apeado do Mundial – como remota consolação o facto de ter acontecido contra o Brasil… -, como me custara ver o mais enfezado Togo a fazer papel mais secundário, salvando-se Angola - porventura a grande surpresa do continente negro! – sem falar da sensação oferecida pela Costa do Marfim, porventura a equipa mais estruturada, mais adulta, mais consciente, já com uma matreirice que mais ajudou a reforçar o desencanto em a ver «corrida», mesmo tendo em conta o melindre de ter caído no «grupo da morte».
A partir de agora, o Mundial fica reduzido à Europa e aos «galifões» Brasil e Argentina, selecções «obrigatórias» no afunilamento qualitativo da competição, os mais qualificados e fiéis intérpretes sul-americanos, expoentes de um futebol-ARTE, do qual, mais do que as virtualidades colectivas, se espera sempre um fogacho individual que nos faz reconciliar com jogo, mesmo quando a produção global das equipas não ultrapassa os patamares do desencantamento.
Sem polémicas ou espanto, o crivo das continentalidades ditou a sua lei e, uma vez mais, a Europa prepara-se para se defender da ambiciosa ameaça sul-americana. Está esboçado um velho desafio de quase meio século: só em 1958 uma selecção sul-americana (Brasil) venceu na Europa. Com a Argentina mais flutuante nas suas exibições, o Brasil cumpre a rotina das vitórias pouco temperadas de qualidade ou geradoras de admiração ou elogio. Os dois sul-americanos contra os seis europeus tem tanto de aliciante como tinha de previsível.
Não ter havido lugar para África entre a elite que disputará os quartos-final envolve algum atropelo à essência do melhor futebol negro. Ninguém oferecerá o futuro ao futebol africano – os seus jogadores serão capazes de o CONQUISTAR.